domingo, 23 de maio de 2010

SÉTIMA POSTAGEM

O presente relato traz uma experiência vivida por mim, durante uma atividade de aula no jardim.

Feliz por meus alunos estarem compreendendo bem minhas propostas e conseguindo realizá-las com certa facilidade, acreditei ser o momento de “dar uma complicada!” O resultado sim, foi bastante complicado, já que o tumulto, a confusão e a dúvida foram generalizadas. Um erro de julgamento, uma precipitação que em primeiro momento me deixou mais que assustada, me senti “culpada”!


“Para o professor, é muito desconcertante analisar a questão do erro, está intrínseco aí, a causa do fracasso escolar, já que costumamos associar uma coisa à outra e, ainda, ao “fraco” desempenho do educadorem sala de aula. Sobre esse ponto de vista Mello (1985, p. 95), faz aseguinte consideração: “Dado o envolvimento afetivo que o professor acabatendo com sua prática profissional, é inevitável que o fracasso de seus alunos acabe por atingi-lo em sua auto-imagem, colocando em questão sua própria competência.” Contudo, existem muitos fatores e teorias para explicar o “erro”, o fracasso escolar e a responsabilidade que tem o educador em repassar seus conhecimentos. Todas essas teorias não se sustentam se não forem analisadas, em primeiro lugar, as diferenças entre desenvolvimento e aprendizagem. Para Fante (2003), a aprendizagem é o conhecimento adquirido e internalizado, fruto da interação do sujeito com o meio onde vive e acontece de acordo com uma ação espontânea ou estimulada. Desenvolvimento é o processo em que o indivíduo constrói seu conhecimento e desenvolve suas estruturas internas dentro de suas capacidades e limites.”

(Nogaro e Granella, 2004).

Acretido que cometi um erro ao pedir que crianças, com idades que variam de 4 a 6 anos, conseguissem realizar uma atividade de busca, recorte, colagem de 5 amostras de 5 elementos diferenciados ao mesmo tempo. Claro que muitos conseguiram, todos tentaram, mas para alguns o processo foi frustrante, até por que não considerei no momento, casos expecíficos, como a de crianças recém chegadas à turma, vindas do MII.

Segundo Piaget, a fase do desenvolvimento cognitivo em que estão às crianças de jardim é o pré-operatório (2-7 anos), onde o pensamento não consegue efetuar operações mentais. Ela privilegia as suas percepções subjetivas, desprezando as relações objetivas e por tanto, interessa-se essencialmente por resultados práticos. A sua percepção imediata é encarada como verdade absoluta, sem perceber que podem existir outros pontos de vista.

Quando percebi que o grau de dificuldade proposto por mim ultrapassava as possibilidades das crianças, dei novas instruções, reduzi a uma amostra por elemento ou dos que se conseguisse encontrar. Mas daí, o problema já estava armado, a turma estava agitada, a tarde se passava e eu não conseguia entender como havia cometido tal erro!


“... Mais importante do que considerar exclusivamente as condições específicas do sujeito ou do objeto, como explicação da gênese do conhecimento, é a capacidade do sujeito de estabelecer relações entre o novo e o velho, a capacidade para assimilar o novo e acomodar (transformar) o velho, produzindo sínteses indefinidamente renovadas. Através dessa explicação, desenvolvimento e aprendizagem estão envolvidos dialeticamente. Isso significa que não é a aprendizagem que promove o desenvolvimento, apesar de sua contribuição. São necessárias condições estruturais, de desenvolvimento, para possibilitar a aprendizagem. Sem essas condições estruturais, como exaustivamente demonstram as pesquisas de Inhelder, Bovet e Sinclair, não há aprendizagem no sentido amplo, isso é significativa e duradoura. “

( Marques, UFRGS – PEAD 2009/1).

Agora, estou mais tranquila. Tal situação me fez repensar as propostas, ter um olhar diferenciado para os alunos que ainda estão se adaptando e principalmente aceitar meus erros como parte do processo de apreder.

“O professor - acredita que seu aluno é capaz de aprender sempre. Esta capacidade precisa, no entanto, ser vista sob duas dimensões, entre si, complementares. A estrutura, ou condição prévia de todo o aprender, que indica a capacidade lógica do aluno, e o conteúdo. Lembremos que, para Piaget (1967), a estrutura é orgânica, antes de ser formal. A dinamização ou dialetização do processo de aprendizagem exige, portanto, dupla atenção doprofessor. O professor, além de ensinar, precisa aprender o que seu aluno já construiu até o momento - condição prévia das aprendizagens futuras. O aluno precisa aprender o que o professor tem a ensinar (conteúdos da cultura formalizada, por exemplo); isto desafiará a intencionalidade de sua consciência (Freire, 1979) ou provocará um desequilíbrio (Piaget, 1936; 1967) que exigirá do aluno respostas em duas dimensões complementares: em conteúdo e em estrutura. Para Freire, o professor, além de ensinar, passa a aprender; e o aluno, além de aprender, passa a ensinar. Nesta relação, professor e alunos avançam no tempo. As relações de sala de aula, de cristalizadas - com toda a dose de monotonia que as caracteriza - passam a ser fluídas. O professor construirá, a cada dia, a sua docência dinamizando seu processo de aprender Os alunos construirão, a cada dia, a sua discência, ensinando, aos colegas e ao professor, novas coisas. Mas, o que avança mesmo nesse processo é a condição prévia de todo aprender ou de todo conhecimento, isto é, a capacidade construída de, por um lado, apropriarse criticamente da realidade física e/ou social e, por outro, de construir sempre mais e novos conhecimentos.”

( BECKER, 1994).

BIBLIOGRAFIA:

· MARQUES, Tania Beatriz Iwaszko, EPISTEMOLOGIA GENÉTICA E CONSTRUÇÃ O DO CONHECIMENTO. UFRGS – PEAD 2009/1.

· Tradução de: LAVATTELLY, C. S. e STENDLER, F. Reading in child behavior and development. New York: Hartcourt Brace Janovich, 1972.

· BECKER, FERNANDO. MODELOS PEDAGÓGICOS E MODELOS EPISTEMOLÓGICOS. EDUCAÇÃO & REALIDADE, Porto Alegre: v. 19, n. 1, p. 89-96, jan./jun., 1994.

· NAGARO, Arnaldo e GRANELLA, Eliane, O ERRO NO PROCESSO DE ENSINO E APRENDIZAGEM. Artigo publicado na revista de Ciências Humanas da URI. Ano V, n º 5, 2004.

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